um rolê pela cidade, às vezes de bike

Renata Florentino

Em caso de apocalipse, não use fone de ouvido

Dia 18 de julho faleceu o ciclista Ricardo José da Cruz, conhecido como Doidão Tatto.

Ainda que não se tenha clareza sobre as circunstâncias precisas sobre o atropelamento, já se sabe que ele não estava na contramão, como a versão do Correio Braziliense deu a entender.

Agora, a “justificativa” para a morte é que o ciclista estava pedalando de fones de ouvido. O fetiche do capacete e das luvas não pode ser usado dessa vez, como foi usado contra a Carol Scartezini em junho de 2013, pois Ricardo estava com todos os equipamentos de segurança recomendados.

Mas continua sendo um ciclista na rua, no meio do espaço dos carros. Que ideia!

Então, busca-se algo na falha da conduta da vítima, para vitimizá-la novamente.

Como se a velocidade da via não fosse mais importante.

Como se a atenção do motorista não fosse mais importante.

Como se a falta de tratamento cicloviário na pista não fosse mais importante.

Como se o fato do ciclista já ter sido penalizado com a vida não fosse mais importante.

Esse discurso do “morreu, mas também tava vacilando, né?” colabora muito pouco para se avançar na construção de cidades mais seguras. Pega-se microfatores de risco (que claro que podem orientar nossa conduta individual) em vez de se observar os macrofatores de risco que de fato são determinantes para o acontecido, e que devem ser foco de maior atenção nas políticas públicas, como a redução dos limites de velocidade, a atenção aos cruzamentos, as campanhas educativas que de fato eduquem, a qualidade das nossas estruturas viárias e a pouca segurança que oferecem, as excessivas viagens diárias que são feitas de carro que poderiam ser desestimuladas com investimento em sistemas de transporte eficiente e confortável…

Num cenário de crescimento desmedido de frota, morte crescente de motociclistas, investimentos pesados num modelo rodoviarista de deslocamento, a deliberada falta de condições do GDF de incorporar sugestões da sociedade para a política de transporte, a preocupação com o uso de fones de ouvido por parte do ciclista num cenário de apocalipse motorizado cada vez mais próximo soa muito, muito mal colocada.

Soa como “área de minas terrestres. evite andar descalço”, “em caso de chuva ácida, não saia de casa sem chapéu”. Em caso de apocalipse motorizado, não use fone de ouvido.

O ciclista já falecido não merece mais esse julgamento “pós-juízo final”. Nem a família merece isso no momento de tentar acomodar sua dor e seguir em frente sem um ente querido. Nem a sociedade merece enterrar suas vítimas reproduzindo a lógica que já vitimiza.

 

 

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One comment on “Em caso de apocalipse, não use fone de ouvido

  1. sheylane
    22/07/2014

    excelente texto!!

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This entry was posted on 22/07/2014 by .

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