um rolê pela cidade, às vezes de bike

Renata Florentino

TEDx Universidade de Brasília: Transporte não se resolve só com transporte

foto Marco Gomes

marco gomes

Recebi um convite bem bacana para participar da edição TEDx na Universidade de Brasília. Mobilidade Urbana não era um tema previsto na programação, mas foram tantos pedidos através do facebook que a produção foi atrás de alguém para cobrir o tema. E chegaram em mim através desse vídeo aqui, feito pelo Thiago Amâncio, chamado Cabeça, Tronco e Rodas, em que ele cobriu a linda vaga viva que fizemos no Dia Mundial Sem Carro de 2014.

Aí segue o texto da apresentação, preparado e ensaiado com muitas ajudas, mas ainda assim na hora saiu cheio de errinhos :p . Nessa versão estão inclusive os exemplos que eu esqueci de dar na apresentação!

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Dizem que é mais fácil encontrar o amor da sua vida do que uma vaga pra estacionar no Setor Comercial Sul.

Teve um tempo em que eu acreditei nisso. Eu achava que, realmente faltava vaga para estacionar em Brasília, que, realmente, podiam fazer mais um estacionamento ali, desmatar umas árvores e pavimentar.

Até entender, na verdade, que ninguém tem como objetivo achar uma vaga pra estacionar. O objetivo das pessoas é chegar no lugar.

E se ela chega a pé, de bicicleta, carona, ônibus ou metrô, a preocupação em achar vaga de estacionamento desaparece.

E aí, com o tempo, eu percebi que na ótica das pessoas que já andam bastante a pé em Brasília, não tá faltando vaga para estacionar, tá sobrando.

uirá lourenço

uirá lourenço

Porque não tem calçada, rampa para pessoa com deficiência ou gramado que já não tenha virado vaga em algum momento do dia.

Então a gente vai percebendo como o espaço público vai sendo utilizado de forma privatizada às vezes.

No espaço de uma vaga para carro cabem de sete a dez bicicletas. Cabe uma lanchonete, uma banca de jornal. Cabe muito mais vida do que geralmente tem naquele espaço que fica ocioso 8 horas por dia, e que quando está sendo utilizado é por apenas 1 pessoa para se transportar.

Jean Marconi

jean marconi

E aí a gente vai percebendo essas questões e vê que as possibilidades de uso do espaço público são muitas. E aí se percebe que não está faltando vaga para estacionar, tá faltando é vida nos estacionamentos da cidade.

A falta de vagas em Brasília é um dos mitos que precisam ser quebrados pra gente dar conta de transformar essa cidade e ao longo dessa apresentação vamos quebrar outros 3 mitos.

Dizem que o tombamento atrapalha a modernização do transporte.

Será?

Mathias Shirley

mathias shirley

Porque quem fala isso parece que ignora que as cidades que são reconhecidas no mundo por terem sistemas de transporte excelentes são muito mais antigas que Brasília, com centros históricos muito mais bem preservados.

Tombamento não atrapalha ônibus de passar na hora certa, não impede o ônibus de ser limpo, não impede a implantação de Bilhete Único ou quem sabe um dia de Tarifa Zero.

Nada disso é impedido pelo tombamento. E aí fica parecendo que quem faz essa discussão sobre o tombamento faz ou para manter tudo do jeito que está ou porque tem interesses imobiliários e quer se beneficiar com a alteração da configuração da cidade.

E aí, quem faz essa discussão às vezes fala:

A questão é que falta espaço para o carro nessa cidade, por isso tem tanto congestionamento. Se a gente alargar as vias, fizer uns túneis, fizer uns viadutos, aí o trânsito vai fluir.”

E, acreditando nisso, se fazem pavimentações com as melhores intenções, que tem os piores resultados como consequência.

uirá lourenço

uirá lourenço

Acreditando nisso, em vez de se encurtar o tempo perdido, como consequência se acaba aumentando.

Porque o que acontece é que vão ampliando as distâncias percorridas, aumentando a poluição do ar, aumentando a degradação do espaço público, o gasto das famílias com transporte e aumentando as fatalidades no trânsito.

O efeito efêmero da fluidez logo se perde com demanda infinita por espaço que o carro tem E a gente vai abrindo mão do espaço da cidade, das suas áreas comerciais e residências pra expandir a malha viária de uma cidade. A gente converte o espaço urbano em espaço viário.

Aqui em Brasília por ano, a gente perde 13 dias em congestionamento.

Comparando com outras cidades, Rio e São Paulo, lá se perde um mês inteiro.

O período que se espera ao final do ano, férias de 1 mês, vejam só, se a gente tivesse outro estilo de vida, de urbanização, se teria 1 mês por ano, ou 13 dias no caso de Brasília, pra fazer outras atividades.

E quando vai se debater como construir uma cidade que seja mais interessante, uma das argumentações que aparece é que “investir em transporte público é muito caro”.

Mas a gente não percebe se gasta 12X vezes mais com o transporte individual do que com o coletivo, que tem a capacidade de transportar muito mais gente.

Dentro disso, o grosso é justamente a infraestrutura do espaço viário, a pavimentação, que é um custo de urbanização altíssimo, majoritariamente voltado para o transporte motorizado individual.

Um passageiro de carro polui 9x vezes mais que um passageiro de ônibus e 30x mais que um passageiro de metrô. Uma pessoa que vai de bicicleta ou a pé tem impacto ambiental zero.

A boa notícia é que não precisa continuar assim. A gente pode resgatar a cidade de volta.

A solução então é metrô, BRT, bicicleta?

A solução são as pessoas, mais do que um meio de transporte. Transporte não se resolve só com transporte.

Ao cair nessa armadilha, a discussão vira: Qual o meio de transporte é mais rápido? Mais econômico? Qual transporta mais gente por hora/sentido?

Cada meio de transporte tem, é claro, suas vantagens e desvantagens e seu papel a cumprir na cidade, não se deve nunca ficar refém de um só.

É necessário perceber a perspectiva das pessoas e como elas usam o espaço urbano.

Enquanto se tiver uma concentração tão grande de empregos no Plano Piloto, de 48%, que é um bairro onde mora tão pouca gente, apenas  8% do DF, não tem meio de transporte sozinho que dê conta da situação.

Olha só, Águas Claras tem metade da população do Plano Piloto, 4,4%,  e tem 2,2% dos empregos. Ceilândia tem quase 4 vezes mais gente que Águas Claras, 16%, e tem a mesma quantidade de emprego que Águas Claras, 2,2%.

A gente tem que associar política de mobilidade com política habitacional, mercado de trabalho, descentralização de opções de lazer…

Se a gente não perceber isso, olha o que acontece: Isso aqui é o metrô de SP, linha vermelha, que foi construído ligando Itaquera ao centro da cidade.

lena diaz

lena diaz

Por várias óticas, investir em metrô é excelente, porque não é dependente de combustível fóssil, é o que mais tem capacidade de transportar pessoas/hora/sentido. Mas se não se associa com política urbana, o resultado é que se construiu por uma época a linha de metrô mais lotada da América Latina, e que agora já é a mais lotada do mundo, em termos de pessoas por metro quadrado. A gente passou Xangai, Pequim, Tóquio, Moscou.

Se a gente continuar segregando as pessoas, segregando os usos do espaço urbano, vamos ficar sempre refém de remendar a situação.

Outra notícia boa, é que a solução pra superar isso é muito fácil de ser adotada, em termos de conhecimento disponível. A gente já sabe o que tem que ser feito. Não é implementado por conta da ótica que orienta a gente ao se implementar as decisões…

Se a gente percebe o que a gente gosta de fazer desde criança, que é brincar na rua, ou adulto, que é o mercado ao ar livre, a gente já tem clareza sobre o tipo de cidade que a gente quer ter.

elza fiúza

elza fiúza

O pulo do gato é perceber que a ocupação que as pessoas fazem do espaço público em ocasiões especiais não precisa acontecer só em ocasiões especiais. Não é só no dia de domingo que a gente pode fazer com que nossa cidade seja um espaço mais humano e menos motorizado. Se a gente percebe que esse uso do espaço público pode ser vivenciado cotidianamente, se mudarmos algumas premissas das decisões que a gente toma, tanto em termos de decisões individuais, como em termos de investimentos em políticas públicas, há saídas relativamente tranquilas para se mudar o destino nossos e das cidades.

Tranquila não no sentido de ser fácil de implementar e não incomodar ninguém, às vezes incomoda, porque tem gente que se beneficia com o caos urbano do jeito que está colocado hoje.

Mas se a gente percebe que é alcançável, que é realizável, mesmo que numa fase de transição incomode alguns setores que se beneficiam da situação do transporte como ele está hoje, a gente vai dar conta de sair daquele mito, que fala que Brasília foi feita pros carros.

Chega um momento em que não importa mais se foi ou não foi construída pros carros. O que importa, é que ela não precisa mais continuar sendo feita para os carros.

joe valle

joe valle

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This entry was posted on 24/03/2015 by .

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